sexta-feira, 16 de outubro de 2009

CABRITO DO FOGO. CAPITULO 4. FLATULÊNCIA OU MORTE?

Tinha que abrir a porta ou a casa toda desabaria. Preferi que desabasse. O câncer no pâncreas da vovó havia alcançado o ápice da dor, transformando a mais poderosa das drogas em um irônico paliativo. Nos meus 14 anos, sentia-me impotente e confuso por não entender o porquê de seu espírito indomável não aproveitava aquela situação para escapar do corpo decrépito; talvez fosse a existência de detritos acumulados em forma de segredos que continuavam bloqueando a sua passagem para o outro lado. Era como se o interior da sua cabeça fosse uma pia interditada cuja torneira enferrujada manteve-se pingando até o ponto de transbordar. Contudo, cada confissão desentupia o ralo da sua memória, fazendo com que as lembranças aquosas girassem em sentido anti-horário ao descer pelo sifão do destino, e escoassem pelo esgoto da vida até desembocarem no mar da morte.

Deitei-me ao seu lado do mesmo jeito como quando eu era criança, e corria para o seu quarto para me proteger dos meus constantes pesadelos com o Fofão da televisão. Fiquei fazendo um cafuné no seu fuá branco, almejando que meus dedos simulassem um pente sonífero, e enquanto eu observava as inúmeras rachaduras do tempo que tinham mudado o relevo do seu rosto, respirei o mais profundo possível para guardar o seu cheiro característico. Era uma mistura de almíscar, lavanda e um toque de livros antigos, um aroma que despertava em mim proteção, respeito e amor simultaneamente. Suavemente, se virou para mim e ficamos nos encarando até que seu semblante vazio foi aos poucos se recheando de carinho. Logo me presenteou com um sorriso oco, pois sua dentadura ainda estava de molho, e enfim sussurrou o meu nome beijando-me a testa, como de costume. Mas sua lucidez momentânea acabou quando ela pediu para chamar o Padre Ezequiel. As suas pupilas foram se dilatando e tomando conta da íris (era o olhar de morto de que sempre ouvi falar). Sua face se transformou em uma careta tétrica, a boca se abriu ao máximo como querendo em vão se despedir e, nesse instante, eu soube que tinha chegado o doloroso momento de dizer adeus. Porém, em vez de balbuciar suas últimas palavras, soltou um retumbante peido, tão demorado que pensei que ela morreria por combustão espontânea, e não de câncer. Quando, por fim, se recompôs, estava séria, e foi então que rompeu o silêncio.

- Meu lindo, eu tenho algo muito importante para lhe dizer!
- Diga, vovó Mamá.
- Acho que perdi as pregas do cu de vez...

E, enquanto chorávamos de tanto rir, dei-lhe o abraço mais verdadeiro de toda a vida, caso ela terminasse batendo as botas de vez. Pena que voltou a delirar, e eu tinha virado o Padre Ezequiel de novo. Tem gente que pode achar isso absurdo, mas eu juro com a mão direita sobre a Bíblia que o fedor que havia empestado o quarto foi a razão de vovó recordar uma seqüência de merdas em Cabrito do Fogo do tempo em que eu era um pirralho cabeçudo. Neste dia, eu fui o último a buscar água no poço e terminei caindo dentro. Isso foi no dia do batizado do Didito, o mesmo dia em que o aguaceiro caiu sobre nós e o açude se revoltou.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

CABRITO DO FOGO. CAPITULO3. A MACUMBA SOVIETICA

A porta já estava quase vindo abaixo e o povo amontoado no estreito corredor gritava e dava ponta pés e socos nas finas paredes do quarto tentando abrir pelo menos um buraco para poder atirar em mim; ouviam-se inúmeros murmúrios implorando para que minha avó ficasse calada em nome de Jesus. Empurrei a pesada penteadeira que tinha sido da minha bisavó até a entrada bloqueando o acesso e ganhando mais alguns minutos. Do lado de fora o Padre Ezequiel e seu quesito de beatas continuavam a atender os desmaiados e também os fingidos de desmaiados que queriam evitar a qualquer custa que ele entrasse a tempo de ouvir os podres que Dona Mamá continuava a expelir de dentro da sua alma para tentar morrer mais leve. Do lado de dentro a débil anciã estava acreditando que todos aqueles gritos e estrondos eram as almas penadas que a estavam levando para o caminho do inferno sem direito a escalas. Seu corpo estava arrepiado, e me pediu água bebendo quase toda a jarra de barro porque não queria morrer com sede nem a pau, depois me pediu seus chocolates escondidos embaixo da cama (ela era diabética), e os devorou rapidamente explicando ainda de boca cheia que sabia que comer assim feito um porco era falta de educação, mas é que ela não sabia se lá em cima existia comida e por tanto ela queria partir de barriga cheia só para prevenir. Então me pediu desculpas novamente (na verdade ao padre Ezequiel pois ela continuava a me confundir com ele pelo excesso de morfina) por ter tantas historias pecaminosas para eu devorar, e extremamente esgotada e doidona de medicamentos, voltou a se afundar no colchão velho colocando novamente suas mãos entrelaçadas sobre seu peito acreditando que dessa forma seus dedos juntinhos se transformariam em um passaporte diplomático para entrar no céu e caso fosse pro inferno pelo menos teria essas regalias que somente embaixador tem sem fazer absolutamente nada, a não ser frequentar as festas regadas a champagne e ter trepadas internacionais.Vi a bagunça que tinha feito ao empurrar a penteadeira de lugar e tentei dar uma organizada, mas sua mão direita se cravou como uma garra de gárgula no meu braço e antes que eu lhe pedisse mais informações que saciassem minha curiosidade sobre a família Almeida Melo, um vulcão de historias inflamáveis fez erupção de dentro da sua garganta enraizando meus pés como uma arvore ao lado do Vesúvio.
A lava geriátrica dessa vez atingiu a Seu Benito e a Dona Lucicleide. Eles eram casados há muitos anos mas ninguém nunca os viu usando anel de casamento, e pelo fato de jamais irem a missa aos domingos e evitarem a qualquer custo às perguntas indiscretas dos urubus de São Expedito, começou a rolar boatos de que eles eram satânicos, porque os poucos que tinham entrado na casa deles, haviam avistados bandeiras com estrelas vermelhas, e uma outra maior perto da cozinha que tinha uma foice da morte cruzado com um martelo bizarro e escrito embaixo uns signos todos retilíneos com algumas consoantes invertidas que no mínimo deveria ser algum idioma do capeta ou um código secreto para invocar o mau, mas o que mais os delatava era a tal da foto preto e branco de um Guru maléfico que tinha olhar de biruta, a barba grande e toda mal feita e vestia uma espécie de boina suja que casualmente também tinha uma estrelinha, e estava fumando um enorme charuto desses que usam os macumbeiros para fazer seus feitiços. Ninguém nunca teve coragem de perguntar para o estranho casal quem era aquele homem, mas eu soube depois que alguém descobriu que o sujeito anticristo somente era conhecido como “CHE”.

Minha avó me contou como ela conheceu Seu Benito. Quando ainda ela era moça virgem (acredito que ela deveria ter uns 23 anos porque ela só perdeu o cabaço aos 24) deu uma escapada de noite para ir até o arraiá da cidade vizinha na mula do meu falecido bisavô, mas quando ela já estava um pouco mais da saída de Cabrito do Fogo apareceu-lhe do nada um homem barbudo, sujo, desnutrido e sangrando muito que a abordou com um fuzil e educadamente com um sotaque carioca lhe pediu para lhe dar a mula. Ela obedeceu sem hesitar, o problema foi que ele não sabia que a mula era mais teimosa que o vaticano contra o uso de preservativo, e o homem tentou em vão fazer a bichinha desempacar com muito esforço, mas como ele tinha duas balas cravadas nas costas, seu Benito olhou para Mamá e lhe pediu verdadeiras desculpas por tê-la assustado e com um sorriso de dentes perfeitos, despediu-se e foi cambaleando vagarosamente de volta para a moita a esperar a morte. Ela achou aquele sotaque tão bonito e o jeitinho dele tão cortes que o agarrou pelo ombro antes que ele desmaiasse e o levou rapidamente até o Padre Ezequiel. Seu Benito que na verdade se Chama Victor e era estudante de odontologia, mas que por um acaso desses de ler um livro errado, em um momento errado, mas dado pela mulher certa (Samantha ou melhor dito Dona Lucicleide que era estudante de medicina) terminou virando um dos guerrilheiros comunista mais procurado na época da ditadura. Ele ficou escondido muito tempo em um barraco improvisado dentro das terras do meu bisavô, e quando por fim melhorou, o Padre Ezequiel deu um jeito de ele pegar um ônibus de volta para o Rio de Janeiro para poder salvar a sua noiva. Não demorou nem três semanas e aqueles dois cariocas apareceram com um sorriso estampado no rosto, se instalaram em Cabrito do Fogo, e abriram um consultório odontológico que fez muito mais muito bem a nossa comunidade, já que antigamente quem arrancava os dentes por aqui era o açougueiro, o finado Seu Tutano.

Mas não se iluda de jeito nenhum, o consultório era só fachada para esconder comunistas paraibanos, pernambucanos e um arsenal de rifles semi-automáticos vindos diretamente da antiga União Soviética.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

CABRITO DO FOGO. CAPITULO 2: DIDITO

Desde criança Didito que na verdade se chama Expedito de Jesus Almeida Melo, nunca foi como os outros meninos de nossa região. Nasceu com a alma tão generosa e desapegada aos bens terreais que a molecada só o chamava para brincar com o intuito de ficarem com seus brinquedos. Nunca se importou se a sua bola de futebol fosse velha ou recém comprada, bastava um coleginha miserável pedi-la que ele a dava sem hesitar; mesmo sabendo que ao chegar a casa, Seu Antonio irritado com essa historia de seu filho ser samaritano o receberia com aquela surra de vara de goiabeira e depois o mandaria dormir sem jantar. Mas se alguém perguntar sobre seu passado certamente todos irão responder que Didito tinha tudo para virar um homem santo. Mesmo os maus elementos desta cidade o têm como um sujeito homem tão venerável que é digno de eles roubarem até o Cabaré de Dona Cleuza (ato que seria sentença de morte na certa por todos os peões e maiorais de Cabrito do Fogo. Todos assíduos freqüentadores) só para poder ajudar na construção de uma estatua em sua homenagem. Didito cujo nome de batizo é Expedito de Jesus Almeida Melo em homenagem a São Expedito o padroeiro da nossa cidade e Jesus Cristo o homem mais venerado pela sua defunta mãe. Atualmente ele é “solteiro” têm 43 anos, nascido e criado por estas terras e embora esteja há 20 anos sem pisar por aqui, permanece sendo adorado por 99% da população. Ninguém da comunidade nunca entendeu como um velho safado feito Seu Antonio tinha sido abençoado com aquela criança celestial que era excelente estudante, filho, amigo, e inclusive o melhor coroinha que o Padre Ezequiel teve em seus 22 anos de serviços depois de ter sido excomungado, aliás, a partir do dia que Didito começou ajudá-lo, aumentou tanto o numero de fieis na igreja, que em menos de um ano ela foi restaurada e ampliada. Lógico que existia a Dona Inês e seus 10% de chances de ser retribuída um dia com um filho quase santo. Seu coração de menina-mulher doce e caridoso era para tudo e para todos onipresente... Porém, uma criatura proveniente do colhão daquele cidadão, sem duvidas teria 90% de probabilidades de não ter nascido azul e sim, vermelhão, como um legitimo herdeiro do Capeta, com direito a todos os itens de ultima geração provenientes do inferno. Oras um filho de Seu Antonio só viria ao mundo iluminado se fosse por um lampião, pois o dinheiro para pagar a luz ele gastava com sinuca, birita e putas.
Quando Seu Antonio engravidou Dona Inês, ela só tinha 14 anos e ainda brincava de boneca de pano, e ele tinha 23 anos e brincava de ser caloteiro. Aquele safado sabia que tinha acertado na loteria quando a pegou na marra na festa de São Expedito e a arrastou para a moita sem ela entender nada. Depois desse rala e rola continuo no matagal por mais uns 3 meses, as fofocas chegaram até seu Zezinho que era o pai de Inês, mas como todo homem de vícios abusa da generosidade do seu anjo da guarda, só se salvou de não levar um tiro do velho porque ele prometeu casamento e trabalhar muito na baiúca do seu sogro. È obvio que o desaparecimento sem pistas dos únicos dois irmãos de Inês junto ao rombo que Seu Antonio deixou no caixa da baiúca do Seu Zezinho terminaram matando o velho de um enfarte em menos de um ano. E o maridão de dona Ines transformou a baiuca em jogatina clandestina.
Existe diversos motivos para as pessoas ficarem neuradas ou mudas quando o assunto é Didito, mas acredito que a razão mais forte seja porque o pai dele enlouqueceu após aquela tragédia familiar que aconteceu justamente na noite em que Didito tinha partido para o seminário. Seu Antonio ficou tão louco ao encontrar Dona Inês toda estraçalhada por um facão deixado na mesa de jantar ao lado de um café morno e o caneco pela metade, que optou por se vingar incendiando a igreja de Santo Expedito porque era a única maneira de ele atingir Deus como forma de protesto por toda essa viadagem de religião que ele sempre odiou visceralmente. E esse piromaniaco episodio mudou a sorte do povo de Cabrito do Açude para sempre, secando inclusive o açude. Depois disso tudo ficou tão desértico que a nossa cidadezinha foi rebatizada no boca a boca como Cabrito do Fogo.
Quando esse assunto é mencionado, os mais encanecidos o citam como “A Isolação Santa do Destino” e depois fecham o bico em uma espécie de pacto silencioso coletivo deixando tudo isso ainda mais abarrotado de mistérios permitindo dar cancha para que a tendência natural de o tempo fosse desvirtuando os fatos e fortalecendo ainda mais os mitos criados pelas novas gerações abismadas ou encantadas com essa arretada historia religiosa contemporânea. Como ninguém nunca soube do paradeiro dele e muito menos uma noticia verdadeira desde que partiu para o seminário. Surgiu uma nova teoria de crença relacionada ao seu sumiço a qual narra, que ele anda perambulando pelo mundo ajudando as pessoas na tentativa de esquecer as memórias de sua amada mãe e assim um dia ele retornar andando pelo meio da catinga com uma barba daquelas de filme repetido de semana santa, e com um sorriso enorme levantaria seu cajado e encheria o nosso povo de milagres novamente. De tanto repetirem esse mesmo boato (que virou fato incondicional), a tal de “A Isolação Santa” foi ficando obsoleta e se transformou em “A Peregrinação de Didito” porque para o verdadeiro matuto de fé, santo que é santo não se isola feito um homem frouxo, e sim caminha entre os seus próximos ajudando os lascados. Ao final das contas Seu Cosme que terminou virando na paróquia o sucessor de Padre Ezequiel, também influenciou pra cacete a toda a população de Cabrito do Fogo com essa profecia, e logicamente sendo um homem erudito e extremamente fanático ainda incrustou um monte de palavras chiques para soar mais bonita a lenda, e não instante meteu outras frases em latim pra ninguém ter que entender porra nenhuma mesmo e assim qualquer cabra metido a sabido questionar suas teorias. Estas que surgiam em seus devaneios religiosos durante a missa e iam sendo sagazmente exemplificadas em citações bíblicas para ele receber mais umas moedinhas extras ao final da missa, fizeram com que a igreja nova fosse construída em velocidade recorde para a possível volta de Didito um dia. O engraçado é que todo mundo fez vista grossa quando a Barriga do Padre Cosme cresceu também a mesma velocidade da construção da Igreja. Mas o Padre tinha seu mérito pela enorme pança, já que é bem mais fácil acreditar em um possível santo milagreiro nativo de carne e osso e que se expressava popularmente pelas ruas de terra batida da cidade, do que um milagreiro de gesso que ninguém nunca soube sua verdadeira origem e que só se comunicava com parábolas. E acreditem, se um padre o um pastor ficasse lendo aqueles verbos emaranhados que mais parece um punho de rede feito por um pescador cheio de maconha, e que os eclesiásticos adoram denominar como “parábolas” e eles não as interpretassem para os fieis desde os seus pontos de vistas morais ou financeiros; tanto a Santa Igreja Católica e como a (não tão santa) protestante Igreja Universal do Reino de Deus estariam fudidas até o dia de hoje. Mas uma coisa eu lhes asseguro, independente de eu ser o culpado por estar empinando minha pipa do Clube do Botafogo no dia do nascimento de Didito, e todos terem acreditado que aquele ponto preto com uma estrela branca era um pedaço de céu que tinha caído na terra em forma de bebé; mesmo assim esse moleque houvesse feito milagres de qualquer jeito, e quando digo milagres nem pensem naquela historinha da água se transformar em vinho e as pedras em pão, isso é fichinha se comparado.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

CABRITO DO FOGO. CAPITULO 1: SÃO BOTAFOGO

SÃO BOTAFOGO

Dona Maricleia ou Dona Mamá como era apelidada carinhosamente a minha avó, era a única preparadora de defuntos que existia por estas bandas naquela época. E mesmo depois que a cidade começou a expandir como um buxo de dona de casa com seu ego aposentado, e confortando nele o recém chegado Seu Asdrúbal, vindo lá da grande Recife e trazendo junto à primeira funerária da cidade, a famosa "Vai com Deus" que era tão arretada que quando alguem ia ser velado nela, o povo até mandava fazer roupas novas com a costureira da cidade para curtir os bebes e comes finerrimos em homenagem ao morto; mas mesmo assim a minha avó nunca parou de prestar os seus serviços para algumas famílias que preferiam manter a linda tradição de velar o defunto na mesa da sala de jantar. Lembro também que até chegou a inaugurar um tal de fast food, mas faliu depois de um ano pois não vendia nada feito com carne de bode. Nessa brincadeira Dona mamá enterrou pelo menos três gerações do pessoal daqui e olha que a funerária tinha inclusive café expresso a vontade feito com maquina italiana e um aposento especial todo decoradinho com querubins as espreitas e litografias soturnas de Frans Francken do século XVII ao redor de uma cama de casal box spring cuja colcha parecia feita de tecido de caixão ao qual ninguém ousava deitar nela por receio de fechar os olhos e terminar virando cliente do Seu Asdrúbal por toda a eternidade. Como em todo velório de interior que se preze aparece até o inimigo do morto para dar os pêsames e depois que acaba a ladainha não se tem nada para fazer, o povo aproveita entre um cafezinho e outro para falar da vida alheia, e normalmente o assunto principal é sobre a família do finado, e acredite, Dona Mamá escutou caladinha muita mas muita coisa mesmo.

Quando chegou a vez da minha avó ficar com um pé na cova não foi muito diferente, a nossa casa encheu tanto que tinha até gente disputando no tapa um espaço para se sentar na pia. Os desgraçados oravam tão alto que pensei que as telhas iriam cair em nossas cabeças. Mas como Dona Mamá era uma figura lendária e querida na comunidade, achei que todo esse reboliço era normal até que todos empalideceram sincronizados ao chegar Padre Ezequiel acompanhado pelo seu cortejo de beatas e seu coroinha favorito que se chama Didito do qual falarei mais na frente porque mesmo depois de duas décadas ainda tem gente que fica cabreira quando se toca no seu nome. Nunca vi o povo ter tantos piripaques em um mesmo dia. O meu pai ficou tão assustado que saiu correndo para tirar mais água no poço e mandou meu tio buscar com urgência na sua amada bicicleta Caloi barra forte, mais oito quilos de açúcar (surto nervoso no interior só se cura com água com açúcar e resaca tambem que conste). Como eu também fiquei em pânico de ser contagiado pelo surto de piripaque, me aproveitei da situação e fui até o leito dela para me afastar de toda essa cagada. Abrindo espaço a cotoveladas entre as pessoas amontoadas no corredorzinho e sentido a cada passo que estava em uma espécie de suruba com roupas agoniado por levar dedadas, acochadas, pegadas no pau, pau com bunda, bunda com pau, esfrega, esfrega, esfrega... terminei também dando o troco botando toda minha genitalia sem cueca e coberta pela calça de poliester cinza escuro no ombro de uma prima terceira que estava sentada no chão na entrada da porta de futura defunta e que ficou me vendo com um sorrisinho maroto como se houvesse acabado de ganhar um papagaio de pirata. O mais estranho é que eu a desejava desde que percebi que ela tinha uma suvaqueirinha distinta e sexy que me deixava doido! Enfim, essa experiencia mais tarde me ajudou a pegar o metro de Sâo Paulo no horario pico quase que com um ommmmmm nirvanezco tantrico para não me sentir descabaçado pelo cu e tambem não virar um punheteiro dos trilhos enquanto lembrava as curvas das nadegas em todos os formatos por onde deslizava sem querer. Consegui chegar no leito de Mamá para lhe avisar que o Padre Ezequiel tinha chegado, mas quando me adentrei no quarto descobri que aquela rezadeira estrondosa era para impedir que alguém escutasse a pobre da velha contar os podres da comunidade enquanto ela delirava. Sem saber o que fazer para acalmá-la diante de aquele tormento, terminei me decidindo por expulsar a todos que estavam lá dentro e passei a chave na porta por dentro e cortei o dedo empurrando o trinco enferrujado.

Trancado ali com a minha vovozinha, aumentei a sua dose de morfina e fiquei olhando sua pele de papel papiro,enquanto umedecia seus lábios tremulos rachados como as nossas terras. Percebendo que os seus olhos se mantinham fixos no prendedor do mosquiteiro da cama colonial, perguntei-lhe se queria que eu adiantase a sua morte,e ela respirou fundo me olhando como se não me reconhecesse e sem parar de manter um sorrisinho paranóico libertou sua voz sibilada me chamando de Padre Ezequiel. Der repente os seus dedinhos entrelaçados sobre o tórax preparados para entrar no além se prenderam ao meu rosto firmemente e achando que lhe daria a extrema unção me beijou na testa implorando para eu devorar seus pecados. Em seguida começou a desembuchar um monte de historias cabeludas de algumas famílias metidas a importante deste purgatório arido.

Quem já conviveu em cidadezinhas pacatas sabe que a gente não tem memória transigente e sim memória transmissiva, só não sei se é para alertar as futuras gerações a não se misturarem com os genes de famílias más elementos, ou é porque todos adoram uma fofoca das boas. Eu fico com a segunda opção. Virei um fofoqueiro...

Ela me contou entre pausas para respirar coisas bem bizarras como por exemplo o verdadeiro motivo da morte de Seu Raimundo ao que todos conheciam como Tutano, apelido que ele ganhou por ser o melhor abatedor de bois da região. Desde menino ele e o nosso ilustríssimo prefeito da cidade namoravam às escondidas, cresceram, casaram, tiveram filhos mais o amor dos dois nunca terminou. Um belo dia a Dona Sebastiana que era esposa de Tutano foi levar café para o marido e os flagrou no rola e rala dentro do açougue, sô que como ela não fez nenhum escândalo ninguém nunca suspeitou dela quando Tutano apareceu com o crânio esmagado deitado no sofá com uma antiga foto de panfleto eleitoral do prefeito,apenas vestindo uma cueca apertadinha furada na bunda e suas botas brancas-carmim de açougueiro. Menos a minha avó que percebeu que Dona Sebastiana não queria vestir o morto de jeito nenhum. Então a velha que era nada esperta começou a falar das novas obras que o prefeito ia fazer na cidade,cutucando tanto a ferida recente da Dona Sebastiana que a bichinha desmoronou nos ombros dela e confessou que pegou a marreta do marido e deu-lhe na cabeça do safado. O prefeito ficou tão desolado com a perda da sua alma gêmea que não podia nem ver um bezerrinho de longe que seu coração dilacerava, então inventou que tinha pego febre aftosa e mandou matar todos os bois da cidade como homenagem silenciosa a Tutano. Minha Avó não a entregou as autoridades e ajudou a viúva desaparer. Mas um belo domingo depois de muitos anos, eu e toda a parentela estavamos reunidos na sala vendo o "Fantástico" e do nada Dona Mamá começou a gritar com o punho fechado para o céu -È isso ai Sebastiana!mete bronca muierrrr!!! E foi quando entendemos que aquela ativista fazendo protesto lá na Amazônia carregando uma bandeira do Green Peace era a Dona Sebastiana toda metida a gringa. A coitada de tanto remorço pelo seu ato hediondo terminou virando Vegan.

Mas sem duvida nenhuma a minha historia favorita que a moribunda velhinha me contou foi a da família Almeida Melo, não só por causa de Didito que é considerado uma espécie de enviado de Deus por todo o nosso povo, mas também porque essa familia tem uma espécie de maldiçao matuta que ninguem jamais comprendera...
Após muitos assuntos incoerentes como algo que nunca entendi direito que narrava algo sobre Gertrudes que era a costureira das madames, e parece que quando criança foi abduzida por extraterrestres voltando com o don de ler os pensamentos dos outros; Mamá foi recordando depois que eu abri no talo a torneirinha de pinga pinga da garrafinha de morfina pendurada do seu lado enquanto a porta do quarto estava sendo quase derrubada e eu consequentemente linchado pela população querendo salvar sua reputação. As suas palavras baixinhas na cadencia de quem transmite uma memória longínqua contou-me o que aconteceu realmente no dia em que as beatas da paróquia mistificaram o nascimento de Didito e o porque eu deixei de ser Botafogo na minha infancia para virar um maldito flamengista.

Naquele domingo ensolarado que lembrava um meio dia mesmo sendo cedo ainda, pela primeira vez não teve a presença delas na missa porque na porta da Igreja apareceu bambeando Seu Antonio ainda amanhecido com seu bafo de cachaça buscando o Padre Ezequiel para que ele desse a extrema unção para a sua mulher que estava tentando parir desde as 2 horas da manha e estava esgotada. Os urubus de São Expedito como eram chamadas às beatas da paróquia, ao ouvirem a noticia foram direto para a casa da mais nova colega convertida enquanto o padre tentava sossegar Seu Antonio que não sabia se estava segurando um crucifixo ou seu revolver na frente do altar-mor enquanto blasfameva coisas empiricas. A coitada da Dona Inês que já estava soltando os bofes pela boca, ficou mais verde ainda quando viu aquelas mórbidas mulheres vestidas de preto se posicionando ao redor do leito enquanto chacoalhavam os terços metralhando-a com mais de mil Aves Maria. Sobrando apenas um minúsculo espaço para que a magrelinha parteira da comunidade trabalha-se no bebe que continuava atravessado, Damiana que era neta da experiente parteira recém falecida Dona Rosario (mas que ainda estava aprendendo a fazer sozinho esse tipo de trabalho)apenas tinha seis nascimentos em seu currículo e estava tão desesperada que só faltava dar umas bicudas na barriga daquela moça agonizante para deixar o bichinho na posição correta. Ao sentir que os dois estavam prestes a morrer, Damiana encheu a mão de óleo e enfiou a mão para posicionar o feto e sem perceber retirou o cordão umbilical do seu pescoço que estava quase estrangulado. Depois daquele ritual de empurra, respira, empurra, vai, vai, mais um pouquinho, isso... Didito nasceu totalmente azul dando um baita susto nela e nas baetas. Mas como Dona Inês percebeu que tinha alguma coisa errada com seu filho devido ao silencio momentâneo no quarto, a parteira que ainda segurava o recém nascido de cabeça para baixo começou a gritar emocionada– “Viva São Expedito! È menino, teu menino. Um milagre, Ele é tão azulzinho, parece até um pedacinho de céu!” ! E assim que ele deu o primeiro berro recuperando sua cor rosada, Damiana o colocou nos braços da mãe e esgotada deitou-se no chão e fechou os olhos agradecendo pela ajuda espiritual da sua avó. Só que a parteira nunca imaginou que aquele comentário idiota que fez para acalmar a Dona Inês (mas que na verdade foi para tirar o dela da reta) fosse deixar as beatas de queixo caído. As doidas saírem correndo da casa acreditando mesmo no tal do milagre e correram para o quintal olhando para cima na procura de algum buraco no firmamento. Lá no longe, mas bem longe uma delas conseguiu achar um buraquinho no céu e inclusive uma estrelinha branca dentro daquele pontinho preto. E Nesse momento foi confirmado o ato divino. Uma microscópica janela da noite dentro da abóbada celeste, era o pedaçinho de céu que caiu na terra... Rapidamente a noticia miraculosa se espalhou chegando até na nossa chácara que ficava lá no cafundó do Judas, e lembro que nesse dia foi a ultima vez que empinei minha amada pipa preta com o escudo do Botafogo, pois meu pai cortou o barbante com seu facão e me proibiu até de falar dela. Nessa mesma noite ele apareceu em casa bêbado e em vez de me esfolar como de costume, me enfiou dentro de uma camisa do flamengo que estava escrito atrás Zico e deu uma gargalhada que nunca mais voltei a ver.


p.s: postei bebado sem editar antes.

FALAR E CALAR (VERBOS)

Nossas palavras se encontraram
E nos perdemos no verbo “FALAR”
Se esta angustia é possessiva
Seja melhor calar:

Todos os erros escondidos
Encadeados ao tempo,
Sentimentos contidos
Transpirados ao vento,

Eu me perco
E tu voltas
E ambos sem respostas
Eu me perco
E tu voltas
Encenando as propostas

Fomos Passageiros perdidos
Que voltavam de corpo inteiro,
Numa novela de vícios
Que todos sabiam o roteiro
não se precisa de indícios,
Para um final de embusteiros

Eu me perco
E tu voltas
Desencontro sem revoltas
Tu te perdes
E não voltas
Somente um adeus de costas

E nossas palavras se perderam
Usufruindo do verbo “CALAR”
Neurônios ativados por impulsos
Para deixar de te memorizar

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Todo Cromático

A viagem se aproxima,
cromáticos sentimentos
em pinceladas que viram dinheiro,
para ter o verdadeiro amor

LEMBRANÇAS ADOLESCENTES: fio terra

Sentia-me um cabo elétrico pelado,
Procurando por um corto circuito sexual,
Entre obscuras calçadas divertidas
Que sempre deixam à beleza mais intensa...

Encontrei uma mulher na voltagem correta,
Nossa eletrostática nos deixou arrepiados,
Envolveu minha alma em fita isolante
E meu raio caiu nela varias vezes no mesmo lugar,

Não houve fio terra.

O FIO DO SONO

Minha insônia deixou de ser doença ao refletir
Que em silencio me costurastes ao teu anjo da guarda,
Sabendo que eu tenho um velcro com a lua,
Para que um dia na luta de acordar e te ver nua
Abotoaras-me ao sol enquanto te beijo para me redimir...

CALCULANDO A OBSESSÃO

E se a tua obsessão sentimental tivesse um tacômetro,
Que indicasse teu amor próprio perdido por kilometros,
Junto com um anemômetro,
Que calculasse tuas suplicas contra o vento,
E um pequeno pluviômetro,
Que medisse o volumem das tuas lagrimas precipitadas?

ATACAMA

Transformaste-me no teu deserto do Atacama,
Mas não queres voar novamente sobre mim,
Para veres as marcas que deixastes pela eternidade,
Onde os caminhantes passam e não perecebem...

terça-feira, 14 de julho de 2009

CINCO DEDOS

Esta semana, tua ausência ficou forte,
anatômica lembrança exemplar,
em tardes-momentos de morte
com cinco dedos que não conseguem te imitar.

DESTILADA.

O copo cristalino suando frio,
a prostituta russa liberando para todos,
de boca sempre aberta para cuspir sem falas,
ela deixa a filosofia etilica para os vagabundos,
que procuram lembranças de tundras no gole,
mas encontram o inferno na garganta,
e pedem mais gelo para diluir o vicio.

JANOCA

Janoca nasce índia loira,
admira os bombeiros paternos,
aprende os classicos literarios maternos,
cospe no incendio,
vira escritora.

ESCOLAS

Escolas são fazendas-prisões sociáveis
onde o joio e o trigo se cultivam juntos,
para deixar a colheita mais produtiva...

terça-feira, 23 de junho de 2009

TELEFONE MUDO

A cidade amanhece cheia de smog,
Os táxis e ônibus imitam grilos acordados,
Meu vizinho já deve ter acendido o bong,
Seu cheiro de maconha com meu café passeiam combinados.

Ontem foi um sábado metropolitano,
Daqueles que você vê e faz de tudo...
Para não se incendiar no domingo com gás metano,
Porque a saudade de ti piora no telefone mudo.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

CICATRIZ

Toda cicatriz tem uma historia em Braile...

BOA SORTE

Nunca deixes ninguem te calar,
so possui muito peso quem não sabe voar,
canta, gira, e dobra em uma esquina,
na sorte de um orgasmo o ceu se aproxima.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

VOLTANDO DO COMA.

Eu vi o sorriso da morte,
e ela precisava de aparelho bucal,
Depois eu vi o olhar do diabo,
e ele precisava de colirio,
Por último eu vi o tal do túnel iluminado,
mas só era uma lâmpada de hospital enquanto eu acordava.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

ORGANIZANDO O CORPO.

Coloquem a minha pele neste cabide,
Os meus músculos têm que ser pendurados atrás da porta,
Esses órgãos vitais organizados por cores nas gavetas,
Meu esqueleto tem que ficar dobradinho dentro do armário,
E não esqueçam de enfiar a minha alma na lavadora.

TOMOGRAFIA.

Deitaram seu corpo,
e o deslizaram para dentro da turbina de avião oca e silenciosa,
plasmaram as imagens de dentro do seu crânio,
uma explosão colorida abstrata,
Mapearam todas as pontes da memória danificadas,
Conseguiram a reconstrução curricular dos seus vícios,
Mas esqueceram tirar uma foto Kirllian dele,
e sua preciosa energia sumiu na eternidade das pálpebras fechadas.


Para meu verdadeiro amigo Gary Herrera “in memorian”